O MOCLATE – Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação foi criado em novembro de 2008, em um encontro nacional. Após analisar a relação entre a educação, as políticas educacionais, a realidade das condições de trabalho nas escolas e o tipo de capitalismo no país, o encontro decidiu pela criação do movimento. Em 2009, no segundo encontro nacional houve uma maior densidade das afirmações da linha classista, inclusive contando com a participação do movimentos estudantil, operário e camponês. O MOCLATE continua levando a discussão classista, sem separar teoria e prática, para dentro das escolas públicas brasileiras e organizando escolas populares junto com os movimentos de massas em luta. (Conheça a carta de princípios da organização do MOCLATE e outras informações no blog: moclatel.blogspot.com)
O MOCLATE conclama os estudantes brasileiros em geral, e em especial os estudantes dos Cursos de Licenciatura, Formação de Professores e Pedagogos a se mobilizarem e a se organizarem em defesa da educação pública brasileira e da melhoria nas suas condições de trabalho, contra o seu acentuado grau de ruína e sucateamento decorrentes das “reformas educacionais” do Banco Mundial executadas pelo gerenciamento de Luiz Inácio (FMI-PT). O sucateamento e a precarização das instituições públicas de ensino, desde as universidades com os cursos de graduação e de pós-graduação que oferecem, até a educação básica dos ensinos fundamental, médio, profissionalizante, da educação infantil e das creches, é parte da essência do que são as políticas deste velho estado e o seu sistema de poder, das classes parasitárias do povo e o seu sistema de governo sob o gerenciamento do oportunismo. As “reformas educacionais” ditadas pelo Banco Mundial, tais como “PCNs” e “Diretrizes Curriculares“ (gerência FHC), “PROUNI” e “REUNI” (gerência Luiz Inácio), só servem para impor uma educação domesticadora, servindo aos interesses do capital monopolista, da dominação do nosso país sob a forma de semicolônia e da exploração de nosso povo.
Capitalismo burocrático e a realidade da educação no Brasil
O capitalismo brasileiro é um capitalismo burocrático. E o que isso significa? E o que tem a ver com o modelo de educação vigente no país? O capitalismo burocrático é o capitalismo implantado pelos países imperialistas nos países colonizados e semi-colonizados. É esse o tipo de capitalismo presente no Brasil e em todos os países dominados pelo imperialismo que não lograram realizar suas revoluções burguesas. Na era do imperialismo, que é a era dos monopólios, a era do capitalismo agonizante, a era da partilha do mundo por um pequeno número de países imperialistas, o modelo burocrático de capitalismo nos países dominados determina os tipos de relações sociais de produção em todos os níveis: na agricultura, na indústria, na ciência e tecnologia, na cultura e na ideologia; gera os modelos pedagógicos de todas as instituições de ensino.
A crescente desnacionalização e privatização da economia brasileira, a entrega das riquezas das reservas naturais e da produção brasileira aos monopólios e ao sistema financeiro, com o mais acentuado grau de rapinagem do país pelo imperialismo em curso, são as características básicas do tipo de capitalismo burocrático e do seu estado. Um estado que representa um sistema de poder da burguesia e dos latifundiários serviçais do imperialismo, cujo sistema de governo está há oito anos sob o gerenciamento do oportunismo FMI-PT. O que é verificado no campo da economia é reproduzido no processo de adoção dos modelos pedagógicos, dos currículos, da organização do ensino e do controle das ciências a partir de sua legitimação pelos mesmos monopólios sediados nos países imperialistas. Um processo determina o outro. Um país dominado em termos da produção e da economia é um país que tem o seu sistema educacional também sob dominação. É assim que é exercido o controle pelo Banco Mundial sobre os planos, os programas, os custos e a epistemologia da formação dos sistemas educacionais brasileiros, transmitidos pelo MEC e pelas secretarias estaduais e municipais de educação.
O movimento classista dos trabalhadores intelectuais e cientistas precisa se por na contra-corrente dessa dominação e dessa determinação. Como afirma Marx, em A Guerra Civil na França, sobre a necessidade de “fazer da ciência um instrumento não de dominação de classe, mas sim uma força popular; fazer dos próprios cientistas não alcoviteiros dos prejuízos de classe parasitas do estado à espera de bons lugares e aliados do capital, mas sim agentes livres do espírito.” Para Marx, “a ciência só pode jogar seu verdadeiro papel na República do Trabalho”. Assim na república do capital onde as ciências foram convertidas em forças produtivas capitalistas, os cientistas só podem ser verdadeiramente reconhecidos como tais se assumirem o papel de esclarecer as leis que entravam o próprio desenvolvimento da ciência e todo o seu potencial libertador.
As instituições científicas e escolares com os tipos de cursos e os seus respectivos currículos, desde a educação infantil até o mais alto grau da pós-graduação, sofrem a determinação da estrutura das classes sociais em luta. Para exemplificarmos as condições de trabalho nas escolas públicas brasileiras tomemos a realidade concreta da educação de um dos seus estados, o Paraná:
A educação básica neste Estado que tem como gerente de turno o senhor Roberto Requião que assume, por sua vez, a posição de um velho caudatário do gerenciamento de Luiz Inácio, sofre das mesmas ruínas em suas escolas: 1) uma escola com salas de aula superlotadas; 2) professores sobrecarregados de trabalho e sem carga-horária suficiente para preparar aulas, pesquisar, estudar e desenvolver planejamentos e avaliações do seu trabalho de modo interdisciplinar com os seus colegas (hora-atividade); 4) equipe pedagógica em número insuficiente de profissionais para o desenvolvimento da organização do trabalho pedagógico e permanentemente solicitada para atender demandas burocráticas da SEED; 5) estruturas físicas sucateadas das escolas sem condições de permanência e de trabalho do corpo docente e dos funcionários fora das salas de aula; 6) falta de laboratórios e defasagem de equipamentos atualizados para desenvolvimento de aulas práticas em todas as áreas; 7) falta de pessoal de apoio técnico como bibliotecários, nutricionistas, técnicos de laboratórios, merendeiros, psicólogos, especialistas em educação especial (DV, DA, DF, DM, entre outros); 8) falta de mais profissionais concursados e um grande número de professores com contratos temporários, precários e sem direitos trabalhistas; 9) baixos salários em todas as faixas da carreira dos servidores – a começar pelos professores cujo salário inicial após concluir a graduação e ser aprovado em concurso receberá a bagatela de R$ 737,95 por 20 horas de trabalho.
Todo esse quadro torna a escola um ambiente por vezes doentio. Trata-se de uma enfermidade social gerada pelas próprias políticas educacionais. Um grande número de professores tem sido afastado do trabalho para tratamento de doenças adquiridas em face dessas condições nas escolas. O que se observa em termos das condições de trabalho nas escolas do Paraná é parte do que ocorre no resto do país.
Esse quadro contrasta com a enganosa propaganda governamental. Os senhores Luiz Inácio, no gerenciamento nacional, e Roberto Requião, no gerenciamento da política provincial, gastam milhões em propaganda para tentar convencer as mentes do povo que fazem o que podem para a educação, e que ela está melhorando. É esse o tipo de melhora. Cumprindo o papel de serviçais de turno da burguesia, os oportunistas na direção estadual da APP-SINDICATO, dos trabalhadores em educação pública do Paraná, se limitam a organizar atos em conjunto com a SEED e com o MEC como a “CONAE” e a propor a criação de “comissões e grupos de trabalho” para encaminhar as decisões como a de “avaliação de desempenho” de funcionários. É para isso que serve o oportunismo na direção desses sindicatos.
Educação Científica e Escola em Período Integral
Erguendo a bandeira da educação científica e em defesa de uma escola pública de qualidade socialmente referenciada e articulada com os interesses da classe trabalhadora, o MOCLATE defende a escola em período integral e a melhoria das condições de trabalho na educação em todos os níveis. Defende que algumas garantias já conquistadas pelos professores das universidades públicas, como os contratos de Dedicação Exclusiva e a distribuição da carga-horária de 40 horas entre ensino, pesquisa e extensão, e atendimento a alunos, preparação de aulas e avaliação, sejam também estendidas aos professores e pedagogos da educação básica. Essas conquistas dos professores universitários estão seriamente ameaçadas pela “reforma universitária” FMI-Lula-Banco Mundial.
A escola em período integral interessa aos trabalhadores brasileiros, em geral, e o MOCLATE assume essa luta. Para a sua implantação é necessário abrir novos concursos que pelo menos dobrem o número de professores e funcionários das escolas. É necessário construir novas escolas e reformar as atuais, dotando-lhes de todas as estruturas capazes de atender alunos e funcionários, restaurantes, cozinhas, bibliotecas, enfermarias, espaço de lazer e recreação, boas salas de aula, laboratórios de ensino e aprendizagem de todas as disciplinas, salas de permanência e estudos para os professores, pedagogos e demais funcionários, hortas escolares, auditório para a realização de eventos culturais, científicos e de interesse da comunidade.
A Escola Popular
A organização das Escolas Populares é a forma mais efetiva dos trabalhadores em educação e dos estudantes para apoiar o desenvolvimento da luta classista em nosso país. A realidade dessa luta demanda mais e mais estudantes e professores no apoio e no desenvolvimento desse tipo de escolas no campo, principalmente onde o movimento classista camponês vem se organizando para tomar terra, tomando-as e distribuindo-as a quem delas precisam para plantar, colher e viver. A escola popular assume o classismo como linha mestra do seu desenvolvimento pedagógico, centrando na disciplina e na coletividade dos seus membros para a formação intelectual, científica, política e produtiva.
A Luta de Classes no Campo
O sistema latifundiário brasileiro assassina, grila e manda matar há séculos. Para isso conta com o apoio dos “governantes” e do “judiciário”. Enquanto isso a “reforma agrária” anunciada pelos gerentes de turno do estado burocrático-latifundiário não sai do papel. Cresce a organização e a temperatura de luta de classes no campo que demanda por uma revolução agrária. O movimento camponês classista e combativo segue avançando tomando terras e distribuindo-as a quem nelas trabalha. De acordo com o Editorial do Jornal A Nova Democracia, no gerenciamento de Luiz Inácio “se promove a mais intensa perseguição aos camponeses em luta pela terra”. Se no gerenciamento de FHC foram assassinados 204 camponeses (contados a partir de 1997), sendo 77 na região Amazônica, no gerenciamento de Luiz Inácio já foram 222 camponeses assassinados até agosto de 2009, sendo 121 só na região amazônica (www.anovademocracia.com.br). Esses assassinatos de camponeses retratam a luta de classes no campo; são também a comprovação de que há uma região onde essa luta assume principalidade: a Região Amazônica. Eles também são a prova inconteste da ação criminosa dos latifundiários e do seu estado. O MOCLATE entende que não é possível mudar nosso país sem revolucionar sua estrutura agrária, por isso apóia a revolução agrária e conclama os estudantes a organizarem comitês de apoio aos camponeses na sua luta e organização pela destruição de todos os latifúndios e distribuição de terras a quem nela trabalha, denunciando os crimes do latifúndio e do seu velho estado.
O MOCLATE conclama ainda os estudantes a erguerem a bandeira do classismo e a organizarem em torno dela o seu verdadeiro movimento estudantil combativo, apoiando o movimento operário e camponês na luta pelas grandes e vitoriosas batalhas em curso para destruir parte por parte o sistema de poder das classes exploradoras e o seu velho estado. Um estado burocrático, burguês e latifundiário a serviço do imperialismo. A destruição desse velho poder e a edificação do novo poder, das massas e para as massas, que tem como primeiro conteúdo a destruição do sistema latifundiário sob a bandeira da revolução agrária e distribuição de terra a quem nela trabalha, é tarefa não só dos operários e camponeses, mas também de todos os estudantes filhos do povo brasileiro e de todos os intelectuais sérios. Sem a destruição de todos os latifúndios não há desenvolvimento. Destruir o latifúndio é parte da revolução de nova democracia para a edificação de uma nova economia, uma nova política e uma nova cultura, sob a hegemonia do proletariado organizado a partir da aliança operário-camponesa.
Viva o classismo nos Movimentos Populares!
Viva a nova intelectualidade formada por estudantes, professores e demais trabalhadores em educação comprometidos com o desenvolvimento das ciências, do pensamento livre que sirva ao povo brasileiro!
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
sábado, 19 de dezembro de 2009
PEDAGOGIA REVOLUCIONÁRIA
Makarenko: Os desafios da construção de uma proposta de educação emancipadora numa sociedade em transformação
Cezar Ricardo de Freitas
Professor do curso de pedagogia (UNIOESTE-PR)
A obra de Anton Semionovich Makarenko (1888-1939) precisa ser analisada a partir da Revolução de Outubro de 1917, onde a União Soviética se destaca como a primeira tentativa concreta de construir uma sociedade voltada para o pleno desenvolvimento do ser humano e, portanto, de construção de uma proposta socialista de educação, em contraponto à forma como a educação se apresentava na sociedade capitalista.
Buscar entender a experiência de Makarenko nos ajuda a compreender as possibilidades de desenvolvimento de uma Educação Integral. O fato de ser considerado o “símbolo” de uma educação socialista nos indica a existência de uma pedagogia distinta e, por isso, é preciso buscar os elementos dessa construção.
Makarenko, como pedagogo, destaca-se a partir das realizações que fez em uma colônia destinada ao atendimento de jovens delinqüentes, a Colônia Gorki (1920-1928), que ocorreu em três locais: Poltava (1920-1923), Trepke (1923-1926 e Kuriaj (1926-1928) (LUEDEMANN, 2002, p. 119). Foi um dos pioneiros a introduzir a co-educação no ensino, contrariando as tendências pedagógicas de sua época, que separavam os homens das mulheres (CAPRILES, 1989, p. 98). A presença feminina foi um elemento a mais na construção de um coletivo com um senso de humanismo ainda mais profundo (LUEDEMANN, 2002, p. 146).
O aumento da criminalidade infantil no período da Guerra Civil (1918-1920) tinha se tornado um fator de desestabilização da paz social, forçando o Governo Revolucionário a tomar algumas medidas para enfrentar o problema. A primeira medida foi a transferência do sistema correcional de menores do âmbito da administração judicial para o setor de educação. A segunda foi a criação de uma colônia ou de uma escola de trabalho e educação social, ao invés de um reformatório. Em setembro de 1920 Makarenko foi convidado para dirigir essa primeira colônia experimental (CAPRILES, 1989, p. 80).
Era preciso, então, recuperar os jovens através do trabalho educativo. Era preciso criar um “novo” homem a partir de uma nova pedagogia (MAKARENKO, s/d, p.12). Este “novo” homem deveria ter como característica fundamental o sentimento de coletividade, que se coloca como meta fundamental da educação, mas, é, ao mesmo tempo, a expressão de sua experiência na Colônia Gorki.
As dificuldades enfrentadas por todos na colônia, desde a fome e a falta de recursos, contribuíram para que educadores e educandos - estes sem outros laços familiares – se tornassem um imenso coletivo. Os roubos de mantimentos e de instrumentos que ocorriam na colônia e a violência entre os educandos eram encarados por Makarenko como um dos maiores obstáculos a serem enfrentados, pois caracterizavam a expressão de interesses individuais em detrimento do coletivo. Vencer essas barreiras não era apenas uma condição para a sobrevivência material da colônia, numa época de escassez, mas era o seu próprio objetivo educacional.
Para Makarenko o princípio de coletividade apenas poderia existir numa sociedade socialista (CAPRILES, 1989, p. 163). Portanto, afirmava que na sociedade burguesa as qualidades da personalidade humana eram outras e, por isso, a educação burguesa era destinada à formação da individualidade, com responsabilidades também individuais para a sobrevivência. Na sociedade soviética, por sua vez; seria diferente, uma vez que existiria uma cadeia de dependências completamente distinta, própria dos membros de uma sociedade para além de uma simples multidão. Na medida em que transcorreria a vida nesta sociedade, as pessoas se desenvolveriam como membros de uma coletividade (MAKARENKO, 1975, p. 109-110). Para Makarenko o coletivo é um organismo social vivo e, por isso mesmo, possui órgãos, atribuições, responsabilidades, correlações e interdependências entre as partes. Se tudo isso não existe, não há coletivo, há uma simples multidão, uma concentração de indivíduos. (MAKARENKO, apud CAPRILES, 1989, p. 13).
A educação tem um significado amplo para Makarenko, extrapolando a dimensão da instrução escolar. Assim, a idéia é de uma Educação que retira a centralidade unicamente da sala de aula, mas “Ao contrário de negar a escola, a pedagogia de Makarenko reconhece a força social e revolucionária dessa instituição social, principalmente sob influência das organizações revolucionárias da classe trabalhadora (LUEDEMANN, 2002, p. 19).
A Colônia Gorki ao ser tomada como referência de um trabalho coletivo, não estava desvinculada dos interesses mais amplos da Revolução Soviética, ao contrário, a dimensão política de uma sociedade, que tinha como objetivo atingir o comunismo, encontrou um espaço privilegiado para se desenvolver, tendo em vista a centralidade da preocupação coletiva. Ao ter a sua vida praticamente circunscrita às atividades da Colônia, os educandos receberam uma formação que visava o desenvolvimento das diversas potencialidades humanas: produtiva, ao participar ativamente do trabalho; artística e cultural, ao propiciar as diferentes atividades realizadas dessa natureza; política, ao desempenhar práticas de coletividade, de organização e de decisão; todas articuladas aos interesses que a Revolução tinha inaugurado.
A acusação feita por alguns autores de que Makarenko tem pouco a dizer a respeito da escola, parte da constatação de que sua elaboração teórica não é produto de experiências de uma escola organizada na forma como a concebemos tradicionalmente. O que escreveu, no entanto, caberia plenamente aos objetivos não somente escolares, mas à educação no seu sentido mais amplo, que era o objetivo colocado ao novo momento histórico na Rússia, ou seja, a preocupação de que a escola se articulasse aos anseios revolucionários, a construção de uma sociedade, onde o pleno desenvolvimento humano teria que ser conquistado. Poder-se-ia pensar, inclusive, em uma nova formatação das instituições escolares para uma nova sociedade em construção. O fato de trabalhar com menores infratores, órfãos em grande parte, é um diferencial. Isso, no entanto, não desqualifica suas realizações, quando relacionadas com a escola “normal”, principalmente se comparadas com as dificuldades enfrentadas pelas famílias para com a educação de seus filhos, preocupação que já era grande naquele período.
Referências:
LUEDEMANN, C. Anton Makarenko: vida e obra – a pedagogia na revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2002.
CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. São Paulo: Scipione, 1989 (Pensamento e ação no magistério).
MAKARENKO, Anton Semionovich. Poema pedagógico. s/d, sem mais referências.
____. Problemas de la educación escolar soviética. Moscou: Progresso, 1975
Cezar Ricardo de Freitas
Professor do curso de pedagogia (UNIOESTE-PR)
A obra de Anton Semionovich Makarenko (1888-1939) precisa ser analisada a partir da Revolução de Outubro de 1917, onde a União Soviética se destaca como a primeira tentativa concreta de construir uma sociedade voltada para o pleno desenvolvimento do ser humano e, portanto, de construção de uma proposta socialista de educação, em contraponto à forma como a educação se apresentava na sociedade capitalista.
Buscar entender a experiência de Makarenko nos ajuda a compreender as possibilidades de desenvolvimento de uma Educação Integral. O fato de ser considerado o “símbolo” de uma educação socialista nos indica a existência de uma pedagogia distinta e, por isso, é preciso buscar os elementos dessa construção.
Makarenko, como pedagogo, destaca-se a partir das realizações que fez em uma colônia destinada ao atendimento de jovens delinqüentes, a Colônia Gorki (1920-1928), que ocorreu em três locais: Poltava (1920-1923), Trepke (1923-1926 e Kuriaj (1926-1928) (LUEDEMANN, 2002, p. 119). Foi um dos pioneiros a introduzir a co-educação no ensino, contrariando as tendências pedagógicas de sua época, que separavam os homens das mulheres (CAPRILES, 1989, p. 98). A presença feminina foi um elemento a mais na construção de um coletivo com um senso de humanismo ainda mais profundo (LUEDEMANN, 2002, p. 146).
O aumento da criminalidade infantil no período da Guerra Civil (1918-1920) tinha se tornado um fator de desestabilização da paz social, forçando o Governo Revolucionário a tomar algumas medidas para enfrentar o problema. A primeira medida foi a transferência do sistema correcional de menores do âmbito da administração judicial para o setor de educação. A segunda foi a criação de uma colônia ou de uma escola de trabalho e educação social, ao invés de um reformatório. Em setembro de 1920 Makarenko foi convidado para dirigir essa primeira colônia experimental (CAPRILES, 1989, p. 80).
Era preciso, então, recuperar os jovens através do trabalho educativo. Era preciso criar um “novo” homem a partir de uma nova pedagogia (MAKARENKO, s/d, p.12). Este “novo” homem deveria ter como característica fundamental o sentimento de coletividade, que se coloca como meta fundamental da educação, mas, é, ao mesmo tempo, a expressão de sua experiência na Colônia Gorki.
As dificuldades enfrentadas por todos na colônia, desde a fome e a falta de recursos, contribuíram para que educadores e educandos - estes sem outros laços familiares – se tornassem um imenso coletivo. Os roubos de mantimentos e de instrumentos que ocorriam na colônia e a violência entre os educandos eram encarados por Makarenko como um dos maiores obstáculos a serem enfrentados, pois caracterizavam a expressão de interesses individuais em detrimento do coletivo. Vencer essas barreiras não era apenas uma condição para a sobrevivência material da colônia, numa época de escassez, mas era o seu próprio objetivo educacional.
Para Makarenko o princípio de coletividade apenas poderia existir numa sociedade socialista (CAPRILES, 1989, p. 163). Portanto, afirmava que na sociedade burguesa as qualidades da personalidade humana eram outras e, por isso, a educação burguesa era destinada à formação da individualidade, com responsabilidades também individuais para a sobrevivência. Na sociedade soviética, por sua vez; seria diferente, uma vez que existiria uma cadeia de dependências completamente distinta, própria dos membros de uma sociedade para além de uma simples multidão. Na medida em que transcorreria a vida nesta sociedade, as pessoas se desenvolveriam como membros de uma coletividade (MAKARENKO, 1975, p. 109-110). Para Makarenko o coletivo é um organismo social vivo e, por isso mesmo, possui órgãos, atribuições, responsabilidades, correlações e interdependências entre as partes. Se tudo isso não existe, não há coletivo, há uma simples multidão, uma concentração de indivíduos. (MAKARENKO, apud CAPRILES, 1989, p. 13).
A educação tem um significado amplo para Makarenko, extrapolando a dimensão da instrução escolar. Assim, a idéia é de uma Educação que retira a centralidade unicamente da sala de aula, mas “Ao contrário de negar a escola, a pedagogia de Makarenko reconhece a força social e revolucionária dessa instituição social, principalmente sob influência das organizações revolucionárias da classe trabalhadora (LUEDEMANN, 2002, p. 19).
A Colônia Gorki ao ser tomada como referência de um trabalho coletivo, não estava desvinculada dos interesses mais amplos da Revolução Soviética, ao contrário, a dimensão política de uma sociedade, que tinha como objetivo atingir o comunismo, encontrou um espaço privilegiado para se desenvolver, tendo em vista a centralidade da preocupação coletiva. Ao ter a sua vida praticamente circunscrita às atividades da Colônia, os educandos receberam uma formação que visava o desenvolvimento das diversas potencialidades humanas: produtiva, ao participar ativamente do trabalho; artística e cultural, ao propiciar as diferentes atividades realizadas dessa natureza; política, ao desempenhar práticas de coletividade, de organização e de decisão; todas articuladas aos interesses que a Revolução tinha inaugurado.
A acusação feita por alguns autores de que Makarenko tem pouco a dizer a respeito da escola, parte da constatação de que sua elaboração teórica não é produto de experiências de uma escola organizada na forma como a concebemos tradicionalmente. O que escreveu, no entanto, caberia plenamente aos objetivos não somente escolares, mas à educação no seu sentido mais amplo, que era o objetivo colocado ao novo momento histórico na Rússia, ou seja, a preocupação de que a escola se articulasse aos anseios revolucionários, a construção de uma sociedade, onde o pleno desenvolvimento humano teria que ser conquistado. Poder-se-ia pensar, inclusive, em uma nova formatação das instituições escolares para uma nova sociedade em construção. O fato de trabalhar com menores infratores, órfãos em grande parte, é um diferencial. Isso, no entanto, não desqualifica suas realizações, quando relacionadas com a escola “normal”, principalmente se comparadas com as dificuldades enfrentadas pelas famílias para com a educação de seus filhos, preocupação que já era grande naquele período.
Referências:
LUEDEMANN, C. Anton Makarenko: vida e obra – a pedagogia na revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2002.
CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. São Paulo: Scipione, 1989 (Pensamento e ação no magistério).
MAKARENKO, Anton Semionovich. Poema pedagógico. s/d, sem mais referências.
____. Problemas de la educación escolar soviética. Moscou: Progresso, 1975
VIOLENCIA E EDUCAÇÃO
A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS
Luiz Carlos de Freitas
professor de história
Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.
Bertolt Brecht
Não é raro, hoje em dia, assistirmos nos noticiários, lermos em jornais ou revistas e até mesmo presenciarmos cenas de violência dentro das escolas. Nossa primeira reação é de indignação contra o indivíduo agressor, haja vista que principalmente na televisão, não nos é dado informações mais abrangentes e nem tempo para que consigamos formular uma interpretação mais aproximada da realidade do fato ocorrido. No caso da imprensa escrita, apesar de nos deixar mais livres para refletirmos em um espaço de tempo que, em tese, pode ser definido por nós mesmos e trazer uma quantidade maior de informações, também não nos permite ir além dos limites impostos pela ideologia capitalista, segundo a qual, o indivíduo é o único responsável pelos seus atos. Quando muito nos fazem pensar que se mudarmos os políticos, através do voto consciente, colocando no poder aqueles que se preocupam com a educação, mudaremos a situação.
A grande questão que precisamos refletir, e que, a grande mídia não nos proporciona elementos teóricos para isso, é sobre a origem da violência para então, compreendermos suas diversas manifestações. Para compreendermos esta questão é preciso definirmos, primeiramente, o que é a violência.
A frase de Brecht , na epígrafe desta página nos apresenta uma mostra de quão difícil é perceber a sutileza da violência institucional, provocadora das mais variadas formas de violência com as quais nos defrontamos em nossa sociedade e em nossas escolas. Estas formas de violência, apresentados pela mídia e presentes em nosso dia a dia , nas ruas, bairros e escolas onde trabalhamos, são apenas as águas do rio, cuja as margens cada vez mais diminuem seu espaço, tornando-as mais agressivas.
Numa pequena volta por qualquer cidade de médio e grande porte em nosso país, podemos observar dezenas ou centenas de pessoas que muitas vezes são invisíveis para nós. Catadores de lixo, moradores de rua, pedintes, drogados, deficientes, entre outros, tornam-se cada vez mais comum em nossa sociedade. Além desses temos também os que trabalham na informalidade ou com carteira assinada, porém, com o que ganham não conseguem garantir uma vida digna para si e para suas famílias. São os filhos e filhas deste grupo que recebemos diariamente nas escolas públicas de nosso país, são também eles que, convivendo com a violência na sociedade, a reproduzem no interior das escolas. Aqui não estamos dizendo que todos os estudantes oriundos da classe pobre, que estão nas escolas públicas, sejam pessoas violentas, apenas estamos tentando demonstrar que o problema da violência escapa a qualquer solução que não leve em consideração a questão social. Neste sentido podemos afirmar que a violência não é, de fato, apenas o que nos apresenta a mídia ou até mesmo o que vemos em nosso dia a dia. Ela é muito maior que isso, ela está intrincada no sistema divisor entre capital e trabalho, colocando a maioria do povo em condição de semi-escravidão
Nesta direção entendemos que o modelo econômico, político e social no qual estamos inseridos têm, em sua essência, a violência institucionalizada, legalizada. O Estado capitalista é o braço político, cuja finalidade é manter funcionando o modo de produção. Este modo de produção tem como finalidade a garantia infinita de lucros para a classe detentora do capital que, por sua vez, também domina o poder político. Em decorrência desta questão podemos então nos perguntar: Seria possível acabar com a violência, combatendo o indivíduo que a comete? E qual o papel que a escola pode desempenhar nesta questão? Considerando que todos os dias, desde a hora em que se levanta, o povo pobre, trabalhador, é violentado pelo sistema capitalista, começando com a violência de um transporte coletivo de péssima qualidade, passando pela violência de trabalhar várias horas por dia sabendo que ao final do mês não receberá um salário decente que garanta sua qualidade de vida, sem contar da violência cometida por patrões ou chefes que assediam moralmente seus subordinados. Se ficar doente, mais uma vez é violentado por um serviço de saúde de má qualidade; quando volta para casa, mais uma vez a violência do transporte lotado e ao chegar em casa, se sobrar tempo, ainda será violentado pela televisão que o coloca como fracassado, por não ter estudado e vencido na vida.
Diante de tanta violência contra os trabalhadores, como esperar algo diferente dentro de nossas escolas se são estes mesmos trabalhadores ou os filhos destes que irão freqüentar por algumas horas uma sala de aula? Cabe lembrar ainda a violência presente nas condições de trabalho nas escolas, tais como, salas super lotadas, profissionais mal remunerados, desmotivados, sem muitas alternativas pedagógicas e sem tempo para estudar e preparar suas aulas. Somos todos vítimas, professores e alunos, dentro de um mesmo barco que está afundando.
Levando em consideração a dimensão do problema da violência nas escolas percebemos nossa impotência, enquanto educadores, em resolver tal situação. Portanto cabe a nós, primeiramente, ter a clareza, de que o problema é da sociedade e não da escola. Daí que, se não solucionarmos os problemas sociais não teremos condições de realizar nossa tarefa principal que é a transmissão do conhecimento científico, historicamente acumulado pela humanidade. Solucionar os problemas sociais passa pela necessidade de mudança no tipo de economia que vivemos, isto é, é preciso mudar a lógica da produção atual que objetiva exclusivamente a garantia dos lucros para um pequeno grupo, para um tipo de economia planificada, cuja produção é pensada para garantir o suprimento das necessidades de todos os seres humanos. Tal mudança só poderá ocorrer com uma revolução que tire o poder político das mãos da classe burguesa, passando-o para os trabalhadores, pois são estes os que de fato necessitam da mudança estrutural do modo de produção e os que mais sofrem no atual tipo de organização social.
Por outro lado é preciso levar em consideração que, embora não haja solução para o problema da violência nas escolas sem a mudança radical da sociedade, precisamos buscar formas de conviver com ele. Conviver com o problema não significa aceita-lo, mas buscar formas de combates que condigam com a especificidade do trabalho pedagógico. Não cabe em uma escola, por exemplo, a interferência policial para combater a violência, haja vista ser esta uma instituição autorizada pelo Estado a usar da violência em qualquer ação. Violência não se combate com mais violência.
Para finalizar nossa reflexão, voltemos à frase de Brecht e busquemos pensar mais sobre as margens do rio. Tentar estancar a água sem alargar as margens certamente será em vão, pois a força das águas será superior à nossa e ficaremos impotentes diante dela. Por outro lado se temos clareza de que o problema é provocado pelas margens e não pelas águas, embora não consigamos resolve-lo, ao menos nos aponta algumas possibilidades, dentre elas: 1. Não confundir a vítima da violência com o causador da violência; 2. Não nos culparmos, enquanto educadores, pela impotência diante do problema da violência; 3. Buscar formas alternativas para conviver com o problema da violência no interior das escolas; 4. Discutir seriamente a necessidade de integração em movimentos de educadores que tenham, em seu horizonte, a construção da nova sociedade.
O MOCLATE (Movimento Classista dos Trabalhadores da Educação) surgiu e está se construindo a partir desta perspectiva, ou seja, partindo da realidade concreta vivida em nossas escolas, refletir sobre a possibilidade de mudar esta realidade com a clareza da necessidade de superação do capitalismo pela sociedade socialista. Somente nesta sociedade é que teremos de fato a possibilidade de resolver os problemas sociais, dentre eles a questão da violência.
Luiz Carlos de Freitas
professor de história
Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.
Bertolt Brecht
Não é raro, hoje em dia, assistirmos nos noticiários, lermos em jornais ou revistas e até mesmo presenciarmos cenas de violência dentro das escolas. Nossa primeira reação é de indignação contra o indivíduo agressor, haja vista que principalmente na televisão, não nos é dado informações mais abrangentes e nem tempo para que consigamos formular uma interpretação mais aproximada da realidade do fato ocorrido. No caso da imprensa escrita, apesar de nos deixar mais livres para refletirmos em um espaço de tempo que, em tese, pode ser definido por nós mesmos e trazer uma quantidade maior de informações, também não nos permite ir além dos limites impostos pela ideologia capitalista, segundo a qual, o indivíduo é o único responsável pelos seus atos. Quando muito nos fazem pensar que se mudarmos os políticos, através do voto consciente, colocando no poder aqueles que se preocupam com a educação, mudaremos a situação.
A grande questão que precisamos refletir, e que, a grande mídia não nos proporciona elementos teóricos para isso, é sobre a origem da violência para então, compreendermos suas diversas manifestações. Para compreendermos esta questão é preciso definirmos, primeiramente, o que é a violência.
A frase de Brecht , na epígrafe desta página nos apresenta uma mostra de quão difícil é perceber a sutileza da violência institucional, provocadora das mais variadas formas de violência com as quais nos defrontamos em nossa sociedade e em nossas escolas. Estas formas de violência, apresentados pela mídia e presentes em nosso dia a dia , nas ruas, bairros e escolas onde trabalhamos, são apenas as águas do rio, cuja as margens cada vez mais diminuem seu espaço, tornando-as mais agressivas.
Numa pequena volta por qualquer cidade de médio e grande porte em nosso país, podemos observar dezenas ou centenas de pessoas que muitas vezes são invisíveis para nós. Catadores de lixo, moradores de rua, pedintes, drogados, deficientes, entre outros, tornam-se cada vez mais comum em nossa sociedade. Além desses temos também os que trabalham na informalidade ou com carteira assinada, porém, com o que ganham não conseguem garantir uma vida digna para si e para suas famílias. São os filhos e filhas deste grupo que recebemos diariamente nas escolas públicas de nosso país, são também eles que, convivendo com a violência na sociedade, a reproduzem no interior das escolas. Aqui não estamos dizendo que todos os estudantes oriundos da classe pobre, que estão nas escolas públicas, sejam pessoas violentas, apenas estamos tentando demonstrar que o problema da violência escapa a qualquer solução que não leve em consideração a questão social. Neste sentido podemos afirmar que a violência não é, de fato, apenas o que nos apresenta a mídia ou até mesmo o que vemos em nosso dia a dia. Ela é muito maior que isso, ela está intrincada no sistema divisor entre capital e trabalho, colocando a maioria do povo em condição de semi-escravidão
Nesta direção entendemos que o modelo econômico, político e social no qual estamos inseridos têm, em sua essência, a violência institucionalizada, legalizada. O Estado capitalista é o braço político, cuja finalidade é manter funcionando o modo de produção. Este modo de produção tem como finalidade a garantia infinita de lucros para a classe detentora do capital que, por sua vez, também domina o poder político. Em decorrência desta questão podemos então nos perguntar: Seria possível acabar com a violência, combatendo o indivíduo que a comete? E qual o papel que a escola pode desempenhar nesta questão? Considerando que todos os dias, desde a hora em que se levanta, o povo pobre, trabalhador, é violentado pelo sistema capitalista, começando com a violência de um transporte coletivo de péssima qualidade, passando pela violência de trabalhar várias horas por dia sabendo que ao final do mês não receberá um salário decente que garanta sua qualidade de vida, sem contar da violência cometida por patrões ou chefes que assediam moralmente seus subordinados. Se ficar doente, mais uma vez é violentado por um serviço de saúde de má qualidade; quando volta para casa, mais uma vez a violência do transporte lotado e ao chegar em casa, se sobrar tempo, ainda será violentado pela televisão que o coloca como fracassado, por não ter estudado e vencido na vida.
Diante de tanta violência contra os trabalhadores, como esperar algo diferente dentro de nossas escolas se são estes mesmos trabalhadores ou os filhos destes que irão freqüentar por algumas horas uma sala de aula? Cabe lembrar ainda a violência presente nas condições de trabalho nas escolas, tais como, salas super lotadas, profissionais mal remunerados, desmotivados, sem muitas alternativas pedagógicas e sem tempo para estudar e preparar suas aulas. Somos todos vítimas, professores e alunos, dentro de um mesmo barco que está afundando.
Levando em consideração a dimensão do problema da violência nas escolas percebemos nossa impotência, enquanto educadores, em resolver tal situação. Portanto cabe a nós, primeiramente, ter a clareza, de que o problema é da sociedade e não da escola. Daí que, se não solucionarmos os problemas sociais não teremos condições de realizar nossa tarefa principal que é a transmissão do conhecimento científico, historicamente acumulado pela humanidade. Solucionar os problemas sociais passa pela necessidade de mudança no tipo de economia que vivemos, isto é, é preciso mudar a lógica da produção atual que objetiva exclusivamente a garantia dos lucros para um pequeno grupo, para um tipo de economia planificada, cuja produção é pensada para garantir o suprimento das necessidades de todos os seres humanos. Tal mudança só poderá ocorrer com uma revolução que tire o poder político das mãos da classe burguesa, passando-o para os trabalhadores, pois são estes os que de fato necessitam da mudança estrutural do modo de produção e os que mais sofrem no atual tipo de organização social.
Por outro lado é preciso levar em consideração que, embora não haja solução para o problema da violência nas escolas sem a mudança radical da sociedade, precisamos buscar formas de conviver com ele. Conviver com o problema não significa aceita-lo, mas buscar formas de combates que condigam com a especificidade do trabalho pedagógico. Não cabe em uma escola, por exemplo, a interferência policial para combater a violência, haja vista ser esta uma instituição autorizada pelo Estado a usar da violência em qualquer ação. Violência não se combate com mais violência.
Para finalizar nossa reflexão, voltemos à frase de Brecht e busquemos pensar mais sobre as margens do rio. Tentar estancar a água sem alargar as margens certamente será em vão, pois a força das águas será superior à nossa e ficaremos impotentes diante dela. Por outro lado se temos clareza de que o problema é provocado pelas margens e não pelas águas, embora não consigamos resolve-lo, ao menos nos aponta algumas possibilidades, dentre elas: 1. Não confundir a vítima da violência com o causador da violência; 2. Não nos culparmos, enquanto educadores, pela impotência diante do problema da violência; 3. Buscar formas alternativas para conviver com o problema da violência no interior das escolas; 4. Discutir seriamente a necessidade de integração em movimentos de educadores que tenham, em seu horizonte, a construção da nova sociedade.
O MOCLATE (Movimento Classista dos Trabalhadores da Educação) surgiu e está se construindo a partir desta perspectiva, ou seja, partindo da realidade concreta vivida em nossas escolas, refletir sobre a possibilidade de mudar esta realidade com a clareza da necessidade de superação do capitalismo pela sociedade socialista. Somente nesta sociedade é que teremos de fato a possibilidade de resolver os problemas sociais, dentre eles a questão da violência.
ECOLOGIA
ANALISAR A QUESTÃO ECOLÓGICA E REPENSAR A SOCIEDADE
Rosineide Fabricio
professora de geografia
Vivemos hoje uma grande crise ambiental, são enchentes, secas prolongadas, processos de desertificação de grandes áreas, e muitas outras catástrofes que ocorrem no planeta. A idéia difundida é que esses processos de destruição não escolhem lugar nem pessoas para atingir e que o grande vilão da história é o “homem”. Este “homem”, predador por natureza, que tentam nos fazer acreditar, não possui classe social, pois pode estar em qualquer uma delas, pode ser um burguês que polui os rios com os dejetos de suas indústrias, ou um trabalhador que despossuído de qualquer meio de produção, é obrigado a vender sua força de trabalho por um salário de fome.
Para entendermos com profundidade a questão ecológica, não podemos ficar apenas na aparência, é necessário analisarmos o problema de uma outra dimensão, pois do contrário estaremos sendo enganados pelas falsificações feitas pelos meios de comunicação de massa, que estão a todo tempo com seus programas de ilusões preservacionistas, tentando ocultar os fatos reais, sempre colocando o explorador e o explorado em pé de igualdade na destruição da natureza. Redimensionar a questão significa questionar respostas prontas, entender que é preciso um aprofundamento teórico, para denunciar as verdadeiras causas desse massacre da natureza.
O sistema capitalista imperialista é baseado na espoliação da natureza, cujo objetivo é o lucro a qualquer preço. Como nos lembra Marx “A essência da sociedade burguesa é a acumulação privada de capital”, portanto a natureza neste sistema nada mais é do que uma mercadoria que deve servir aos interesses imediatos e sempre poluidores e devastadores da classe dominante. Embora esse processo seja sempre ocultado, ele não é novo, visto que Engels em sua célebre obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, escrita em 1845, já denunciava as péssimas condições de vida dos trabalhadores, sendo que a degradação e a poluição, embora fossem responsabilidade dos patrões, quem sofria na pele eram os operários. Estes submetidos a exaustivas jornadas de trabalho, fazendo com que morressem muito cedo de tanto trabalhar, de fome ou de doenças provocadas pelos dejetos podres que empesteavam os rios e consequentemente as moradias. Numa passagem de seu livro podemos ler a seguinte constatação:
Num destes pátios, precisamente na entrada, na extremidade do corredor coberto, há banheiros sem portas e tão sujos que os habitantes para entrarem ou saírem do pátio tem que atravessar um charco de urina pestilenta e de excrementos que rodeia estes locais; [...] nas margens do curso de água, há várias fábricas de curtumes que empesteiam toda a região com o fedor que emana da decomposição das matérias orgânicas”.
Os ideólogos do capital sempre instrumentalizam o problema ecológico a seu favor com a fórmula mágica travestida de “sustentabilidade”, como se fosse possível equilibrar os interesses do lucro com preservação ambiental. Devemos entender também que não basta preservar o espaço natural como algo contemplativo e preservacionista, que visa apenas separar ainda mais o trabalhador de sua produção.
A luta ecológica não pode estar descolada da luta revolucionária, pois pensar em mudanças radicais é pensar também na construção de uma outra sociedade, que priorize a vida e que tenha como perspectiva histórica a emancipação humana. Para tanto se faz necessário a destruição da propriedade privada dos meios de produção, em especial, no caso brasileiro, do latifúndio que trás a fome, que destrói os solos, que desmata, gerando a seca e várias mazelas destruidoras da vida. A terra deve ser usufruída por quem nela trabalha e dela necessita; que a natureza seja vista e utilizada como um bem coletivo, capaz de suprir as necessidades humanas; que o consumismo, grande culpado da produção de lixo, conseqüências da ostentação e abusos da burguesia, sejam extirpados dando lugar a produção voltada para coletividade.
Diante de todas essas constatações é urgente pensarmos em construir um outro modelo de sociedade, onde a produção seja planejada de acordo com as necessidades do ser humano e não para garantir lucros a uma minoria em detrimento da vida no planeta. Um modelo onde todos o seres humanos desempenhem suas pontencialidades através de seu trabalho, conscientes de que este é necessário para a existência humana e não para garantir mais-valia para certos parasitas da sociedade, como ocorre no capitalismo. Enfim, como já afirmou Engels: uma sociedade que exija “de cada um segundo a suas potencialidades” e que forneça “a cada um segundo as suas necessidades”. Esta é a única maneira de conter os desastres ambientais que vem ocorrendo e que, certamente, levarão à destruição completa do planeta, caso o lucro continue sendo o objetivo único da sociedade.
Ainda que a maioria não perceba ou tente negar, a busca pela preservação ambiental em um sentido amplo de totalidade, passa necessariamente pela construção do socialismo, que se caracteriza histórica e dialeticamente como o único sistema capaz de frear a destruição total da natureza e colocar a ciência e a técnica a serviço da humanidade, como nos lembra as sábias palavras de Rosa Luxemburgo, “Socialismo ou Barbárie!”.
Rosineide Fabricio
professora de geografia
Vivemos hoje uma grande crise ambiental, são enchentes, secas prolongadas, processos de desertificação de grandes áreas, e muitas outras catástrofes que ocorrem no planeta. A idéia difundida é que esses processos de destruição não escolhem lugar nem pessoas para atingir e que o grande vilão da história é o “homem”. Este “homem”, predador por natureza, que tentam nos fazer acreditar, não possui classe social, pois pode estar em qualquer uma delas, pode ser um burguês que polui os rios com os dejetos de suas indústrias, ou um trabalhador que despossuído de qualquer meio de produção, é obrigado a vender sua força de trabalho por um salário de fome.
Para entendermos com profundidade a questão ecológica, não podemos ficar apenas na aparência, é necessário analisarmos o problema de uma outra dimensão, pois do contrário estaremos sendo enganados pelas falsificações feitas pelos meios de comunicação de massa, que estão a todo tempo com seus programas de ilusões preservacionistas, tentando ocultar os fatos reais, sempre colocando o explorador e o explorado em pé de igualdade na destruição da natureza. Redimensionar a questão significa questionar respostas prontas, entender que é preciso um aprofundamento teórico, para denunciar as verdadeiras causas desse massacre da natureza.
O sistema capitalista imperialista é baseado na espoliação da natureza, cujo objetivo é o lucro a qualquer preço. Como nos lembra Marx “A essência da sociedade burguesa é a acumulação privada de capital”, portanto a natureza neste sistema nada mais é do que uma mercadoria que deve servir aos interesses imediatos e sempre poluidores e devastadores da classe dominante. Embora esse processo seja sempre ocultado, ele não é novo, visto que Engels em sua célebre obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, escrita em 1845, já denunciava as péssimas condições de vida dos trabalhadores, sendo que a degradação e a poluição, embora fossem responsabilidade dos patrões, quem sofria na pele eram os operários. Estes submetidos a exaustivas jornadas de trabalho, fazendo com que morressem muito cedo de tanto trabalhar, de fome ou de doenças provocadas pelos dejetos podres que empesteavam os rios e consequentemente as moradias. Numa passagem de seu livro podemos ler a seguinte constatação:
Num destes pátios, precisamente na entrada, na extremidade do corredor coberto, há banheiros sem portas e tão sujos que os habitantes para entrarem ou saírem do pátio tem que atravessar um charco de urina pestilenta e de excrementos que rodeia estes locais; [...] nas margens do curso de água, há várias fábricas de curtumes que empesteiam toda a região com o fedor que emana da decomposição das matérias orgânicas”.
Os ideólogos do capital sempre instrumentalizam o problema ecológico a seu favor com a fórmula mágica travestida de “sustentabilidade”, como se fosse possível equilibrar os interesses do lucro com preservação ambiental. Devemos entender também que não basta preservar o espaço natural como algo contemplativo e preservacionista, que visa apenas separar ainda mais o trabalhador de sua produção.
A luta ecológica não pode estar descolada da luta revolucionária, pois pensar em mudanças radicais é pensar também na construção de uma outra sociedade, que priorize a vida e que tenha como perspectiva histórica a emancipação humana. Para tanto se faz necessário a destruição da propriedade privada dos meios de produção, em especial, no caso brasileiro, do latifúndio que trás a fome, que destrói os solos, que desmata, gerando a seca e várias mazelas destruidoras da vida. A terra deve ser usufruída por quem nela trabalha e dela necessita; que a natureza seja vista e utilizada como um bem coletivo, capaz de suprir as necessidades humanas; que o consumismo, grande culpado da produção de lixo, conseqüências da ostentação e abusos da burguesia, sejam extirpados dando lugar a produção voltada para coletividade.
Diante de todas essas constatações é urgente pensarmos em construir um outro modelo de sociedade, onde a produção seja planejada de acordo com as necessidades do ser humano e não para garantir lucros a uma minoria em detrimento da vida no planeta. Um modelo onde todos o seres humanos desempenhem suas pontencialidades através de seu trabalho, conscientes de que este é necessário para a existência humana e não para garantir mais-valia para certos parasitas da sociedade, como ocorre no capitalismo. Enfim, como já afirmou Engels: uma sociedade que exija “de cada um segundo a suas potencialidades” e que forneça “a cada um segundo as suas necessidades”. Esta é a única maneira de conter os desastres ambientais que vem ocorrendo e que, certamente, levarão à destruição completa do planeta, caso o lucro continue sendo o objetivo único da sociedade.
Ainda que a maioria não perceba ou tente negar, a busca pela preservação ambiental em um sentido amplo de totalidade, passa necessariamente pela construção do socialismo, que se caracteriza histórica e dialeticamente como o único sistema capaz de frear a destruição total da natureza e colocar a ciência e a técnica a serviço da humanidade, como nos lembra as sábias palavras de Rosa Luxemburgo, “Socialismo ou Barbárie!”.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Polícia de Cabral reprime protesto de profissionais da educação do Rio de Janeiro.
Desde o dia 04 de setembro, os trabalhadores em educação do Estado do Rio de Janeiro deflagraram uma combativa e vigorosa greve. Esta greve foi iniciada após o governo do estado ter proposto a incorporação do programa Nova Escola (gratificação dada aos profissionais de educação mediante certos critérios, mas que hoje corresponde a grande parte do salário destes profissionais cujo piso salarial é de R$ 584,10) em sete parcelas até 2015. O governo também apontou para a mudança do plano de carreira da categoria, conseguido a duras penas, que atualmente prevê o acréscimo de 12% ao salário a cada mudança de nível (o que ocorre de cinco em cinco anos), pretendendo diminuir este percentual para 7,5%.
Além disto, estes trabalhadores têm denunciado sistematicamente a situação caótica das escolas do estado, com salas superlotadas (turmas de até 50 alunos), falta de democracia nas escolas (diretores indicados), infraestrutura precária, e demais absurdos que são comuns nas escolas brasileiras.
No último dia 08 de setembro, os trabalhadores em educação do estado do Rio pararam a avenida 1º de março, uma das principais avenidas do centro da cidade, onde fica o palácio Tiradentes (sede da Assembléia Legislativa do Estado do Rio), para tentar pressionar os deputados estaduais a vetarem a proposta encaminhada pelo governador Sérgio Cabral, de incorporação do programa Nova Escola e da mudança no plano de carreira. Como sempre, esta polícia que tem se especializado em matar pobres e trabalhadores, usou da habitual truculência contra àqueles que ousam protestar.
Utilizando cassetetes, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo, a polícia tentou dispersar a multidão que ocupava a 1º de março. Entretanto, enfrentaram uma feroz resistência dos trabalhadores em educação. Um PM, que tentava prender um manifestante, se viu cercado pela multidão, que tentava impedir a prisão de um companheiro. Neste momento, sacou de uma pistola, apontando-a em direção aos manifestantes. O saldo da manifestação foi: 13 pessoas feridas, algumas com tiros de bala de borracha, e quatro detidas pela polícia.
Esta é mais uma prova de como o fascista Cabral e trata o povo trabalhador, esteja ele dentro das salas de aula ou nas favelas e bairros pobres do estado. A polícia que mais mata no Brasil (só entre 2007 e 2008 foram mais de 2 mil mortos), só não matou ninguém por obra do acaso. A foto e as imagens, que circularam em toda a imprensa carioca, do PM apontando a sua arma para um grupo de trabalhadores em educação, não nos deixa dúvida disto.
Ontem, dia 10 de setembro, os trabalhadores em educação fizeram mais uma manifestação, desta vez em frente ao Palácio Guanabara (sede do governo do estado), desta vez sem maiores incidentes. Após esta manifestação fizeram um assembléia na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que decidiu manter a greve até, pelo menos, a próxima terça.
O Cebraspo e o MOCLATE apóiam mais esta demonstração de combatividade dos profissionais de educação do Rio de Janeiro em luta pela melhora do ensino público no estado, repudia mais esta ação repressiva e violenta da Policia Militar do Rio de Janeiro, sob as ordens dos fascistas Cabral e Beltrame.
Exige também, o atendimento completo das reinvidicações dos trabalhadores em educação do estado, tão sacrificados, explorados e humilhados por sucessivas gestões do governo do estado do Rio.
CEBRASPO (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos)
MOCLATE (Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação)
Além disto, estes trabalhadores têm denunciado sistematicamente a situação caótica das escolas do estado, com salas superlotadas (turmas de até 50 alunos), falta de democracia nas escolas (diretores indicados), infraestrutura precária, e demais absurdos que são comuns nas escolas brasileiras.
No último dia 08 de setembro, os trabalhadores em educação do estado do Rio pararam a avenida 1º de março, uma das principais avenidas do centro da cidade, onde fica o palácio Tiradentes (sede da Assembléia Legislativa do Estado do Rio), para tentar pressionar os deputados estaduais a vetarem a proposta encaminhada pelo governador Sérgio Cabral, de incorporação do programa Nova Escola e da mudança no plano de carreira. Como sempre, esta polícia que tem se especializado em matar pobres e trabalhadores, usou da habitual truculência contra àqueles que ousam protestar.
Utilizando cassetetes, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo, a polícia tentou dispersar a multidão que ocupava a 1º de março. Entretanto, enfrentaram uma feroz resistência dos trabalhadores em educação. Um PM, que tentava prender um manifestante, se viu cercado pela multidão, que tentava impedir a prisão de um companheiro. Neste momento, sacou de uma pistola, apontando-a em direção aos manifestantes. O saldo da manifestação foi: 13 pessoas feridas, algumas com tiros de bala de borracha, e quatro detidas pela polícia.
Esta é mais uma prova de como o fascista Cabral e trata o povo trabalhador, esteja ele dentro das salas de aula ou nas favelas e bairros pobres do estado. A polícia que mais mata no Brasil (só entre 2007 e 2008 foram mais de 2 mil mortos), só não matou ninguém por obra do acaso. A foto e as imagens, que circularam em toda a imprensa carioca, do PM apontando a sua arma para um grupo de trabalhadores em educação, não nos deixa dúvida disto.
Ontem, dia 10 de setembro, os trabalhadores em educação fizeram mais uma manifestação, desta vez em frente ao Palácio Guanabara (sede do governo do estado), desta vez sem maiores incidentes. Após esta manifestação fizeram um assembléia na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que decidiu manter a greve até, pelo menos, a próxima terça.
O Cebraspo e o MOCLATE apóiam mais esta demonstração de combatividade dos profissionais de educação do Rio de Janeiro em luta pela melhora do ensino público no estado, repudia mais esta ação repressiva e violenta da Policia Militar do Rio de Janeiro, sob as ordens dos fascistas Cabral e Beltrame.
Exige também, o atendimento completo das reinvidicações dos trabalhadores em educação do estado, tão sacrificados, explorados e humilhados por sucessivas gestões do governo do estado do Rio.
CEBRASPO (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos)
MOCLATE (Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação)
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Manifesto de Foz do Iguaçu
II Encontro Nacional Classista dos Trabalhadores em Educação
Nos dias 12 e 13 de junho de 2009, ocorreu o II Encontro Nacional do Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação – MOCLATE. Com relação ao I encontro, que ocorreu em Curitiba, em novembro de 2008, este II foi marcado, principalmente, pelo avanço nas discussões sobre a relação das questões imediatas com as questões históricas e o papel que deve ser desempenhado pelos trabalhadores da educação para aproximar cada vez mais as lutas econômicas da luta política. Entendemos que a luta econômica é necessária, pois, como diz Marx em a Ideologia alemã: “os homens devem estar em condições de viver para poder ‘fazer história’. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais”. Diante disto, compreendemos que é necessário levar adiante nossas bandeiras históricas de luta:
· Mais investimento na educação pública estatal em todos os níveis;
· Salário condizente com uma vida digna que satisfaça todas as nossas necessidades básicas
· Mínimo de 50% de hora atividade para os professores prepararem aulas, estudarem, pesquisarem e atender individualmente os alunos;
· Redução significativa de alunos por sala – máximo 8 na educação infantil e 12 para o ensino fundamental e médio;
· Contra o Reuni que aumentará a carga horária e o número de alunos por professor, causando mais sucateamento ao ensino superior;
· Fim do PROUNI e abertura de vagas nas universidades públicas para todos os alunos que concluírem o ensino médio.
Embora tais medidas possam ser taxadas de utópicas por muitos, não é possível melhorar a educação sem elas. As organizações de trabalhadores da educação há muito abandonaram estas bandeiras; a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e a maioria dos sindicatos hoje atuam mais como secretarias ou ministérios do Estado do que como representantes dos trabalhadores. Prova disso é o envolvimento destas organizações com a CONAE (Conferência Nacional de Educação). Para estas entidades a CONAE será a grande conquista de uma educação de qualidade, ou seja, parece que o Estado agora passou a ser aliado dos trabalhadores, que não é mais de classe, que defende os interesses de todos. Será que o Estado realmente mudou? Não vivemos mais em um mundo capitalista cuja função do Estado é proteger a propriedade e os lucros da classe dominante? É possível unificar os interesses dos trabalhadores com os do Estado burguês-latifundiário?
Não esqueçamos que, como já nos provou Marx, o econômico, em última instância é o que determina todas as relações sociais. Partindo disto basta observar o que mudou na economia para ver se realmente o Estado mudou. Tomando como exemplo comparativo os gastos do governo federal em 2008 e a dívida pública, contrastando com os gastos em educação é possível afirmar de fato a serviço de quem o Estado está. Em termos absolutos, enquanto o governo gastou R$ 282,5 bilhões para pagamento da dívida pública, em educação, gastou apenas R$ 23, 7 bilhões. Este valor não ultrapassa 4 % do PIB, em nada diferindo de governos anteriores tão criticados no passado, pelos que hoje estão no governo ou nos sindicatos pelegos comemorando a organização de uma conferência nacional de educação como se esta fosse uma grande conquista histórica para os trabalhadores em educação deste país. Entretanto, conforme demonstramos acima, apesar do discurso em defesa da educação, o investimento nela continua sendo ínfimo, o que demonstra que as propostas para a educação no atual governo não passam de propaganda ideológica, enganosa e politiqueira. Que o Estado faça este jogo não há nada de errado, pois é necessário que ele corrobore no discurso as suas atitudes, mas nos causa indignação ver entidades e pessoas esbravejando na defesa de um governo que, no investimento em educação, não difere dos anteriores. Diante disso, o MOCLATE vem a público denunciar esse descaso, bem como o desvio de bilhões de reais que poderiam ser investidos para melhorar as condições de vida da maioria da população e que estão sendo empregados para salvar bancos e empresas falidas que continuam explorando e espezinhando os trabalhadores.
Educação e crise do capitalismo
A expansão da economia capitalista mundial, puxada pela economia ianque no pós-guerra se esgotou nos anos 1970. A partir daí crises cíclicas sacodem o sistema capitalista mundial em períodos cada vez mais curtos e com impactos cada vez maiores. O crescimento das economias capitalistas centrais é cada vez mais medíocre. A economia ianque que representava metade do PIB mundial no pós-guerra hoje não representa mais que um quarto dele.
No EUA, os salários dos trabalhadores produtivos diretos (que não ocupam cargos de chefia) não têm aumento real desde 1979. Também ocorreu uma forte desindustrialização, com fábricas sendo transferidas para outros países, buscando salários baixos, fontes de energia barata e matérias primas abundantes. Assim, o crescimento econômico da economia neste período foi ilusório, baseado na expansão artificial do crédito e na elevação brutal do déficit público. O estouro da bolha imobiliária, mecanismo de especulação e endividamento da população para financiar seu consumismo, jogou ao chão a economia. O desemprego atinge níveis alarmantes, a população não consegue pagar suas dívidas ou renovar seus créditos. A vertiginosa queda de consumo do EUA está levando ao colapso a produção industrial mundial.
Desde o ano passado, tornou-se ainda mais aguda esta crise, levando milhões de trabalhadores de todas as categorias ainda mais para a miséria, afinal, são estes os primeiros que pagam a conta sempre que o capitalismo sente-se ameaçado. Além disso, a atual crise, não é uma crise qualquer, momentânea, temporária e restrita a alguns países e algumas categorias de trabalhadores. Não é uma crise de “confiança”, de “crédito” e muito menos de uma “incapacidade ou descontrole dos organismos internacionais multilaterais” que não atuaram para controlar a especulação financeira mundial, conforme repete o monopólio de imprensa. Esta é uma crise generalizada e profunda que, a partir do coração do império, espraia-se e atinge a todos os trabalhadores do mundo todo, ainda que de forma desigual, devido à desigual organização social.
Diante da crise, sob pretexto de resolvê-la e de garantir o emprego aos trabalhadores – leia-se de garantir a exploração – a burguesia, através de seus governos, continua a saquear os recursos públicos, a atacar os direitos trabalhistas, relegando milhões de pessoas cada vez mais ao desemprego e à miséria. Os trilhões de dólares torrados pelos governos para “combater a crise” são para concentrar e centralizar ainda mais o capital. As potências se prepararam para a disputa interimperialista, prepararam-se para a guerra.
Os trabalhadores estão sendo cada vez mais atingidos pelo desemprego e pela perda de direitos trabalhistas. No serviço público isto não é diferente. A deterioração dos serviços já há muito tempo tem feito parte do dia-a-dia dos servidores. Aos trabalhadores da educação, também resta a piora de suas condições de trabalho, mais arrocho salarial, terceirizações dos serviços, mais alunos por sala e por professor, escolas cada vez mais sucateadas, etc. As condições de vida destes trabalhadores passam de ruim para pior, as mazelas sociais agravadas por esta crise estouram nas escolas públicas. Não é incomum os casos de violência cada vez mais freqüentes e graves no interior das escolas, professores estressados, deprimidos, sentindo-se impotentes diante dos problemas oriundos da sociedade e que acabam estourando na escola. Se continuarmos neste modelo social de produção (capitalismo) as coisas tendem a piorar cada vez mais. Não adianta querer tapar o sol com a peneira, o fracasso escolar é inerente ao modelo social vigente.
Como vemos, embora estejamos no serviço público e sermos vistos por muitos como pertencentes à classe média, ou coisa do gênero, nossa vida segue dominada pela mesma lei de mercado aplicada para qualquer outra categoria de trabalhadores: reduzir salários e outros benefícios para garantir o máximo de lucro para os capitalistas.
Apesar disso, a poderosa e sofisticada máquina de contra-propaganda da burguesia repete à exaustão que o pior da crise já passou, que poucos meses retomaremos o crescimento. Tudo por manter o trabalhador alienado, para massacrar a opinião pública de que é hora de promover reformas para corrigir rumos, pois, o sistema é bom, insistem seus defensores, basta que se corrijam alguns equívocos e distorções. A burguesia e seus intelectuais e agentes, tentam colocar na cabeça dos trabalhadores a idéia de que “não é possível superar a crise sem crescimento econômico”; que o sistema capitalista é bom e a questão é apenas corrigir alguns erros pontuais, mas sem tocar em sua estrutura, isto é, na propriedade privada e na conseqüente divisão entre capital e trabalho.
Como não poderia ser diferente, para manter o trabalhador alienado, para perpetuar a extração da mais-valia, isto é, para sugar o sangue do trabalhador, não lhes restam outros recursos senão entorpecê-los, investir na sua divisão, fomentar a competição, reforçar o individualismo e alimentar ilusões e fantasias nos processos eleitorais, que não passam de um modelo falido de democracia. Além disso, desviam a atenção do essencial, apresentando algumas “personalidades” como se fossem verdadeiros salvadores, na tentativa de induzir os trabalhadores a acreditar que são estes iluminados que resolverão seus problemas.
Mas os fatos são teimosos e citando novamente, Marx, “o critério de verdade de uma teria é seu desdobramento na prática” e, na prática, o que vemos é a fome, a exploração e opressão empurrando às massas para a luta. Ondas de protesto de trabalhadores sacodem o mundo inteiro. Greves, manifestações, ocupações de fábricas, duros enfrentamentos com a polícia, crescimento de rebeliões populares, incremento da luta anti-imperialista nos mostram a falência do capitalismo.
Para nós do MOCLATE, o imperialismo, atual fase do capitalismo, não se livrará de suas crises, mas também não sucumbirá apenas por elas. Precisa ser derrubado e destruído como modo de produção historicamente superado pela força organizada dos explorados e oprimidos. E qual o papel dos trabalhadores da educação neste processo? Ficar como meros expectadores, repetindo aos alunos que estudem, lutem, batalhem que irão vencer? Ou ir a fundo na teoria científica da sociedade e disputar hegemonia com a ideologia burguesa que afirma ser o individualismo o caminho para vencer na vida?
Os Desafios dos Trabalhadores em educação diante da crise do capitalismo
Das diferentes e sucessivas crises pelas quais os trabalhadores foram passando, já é possível superar ilusões e extrair algumas conclusões:
1. Que de fato o Estado e o Parlamento são meios de a burguesia se locupletar ou seja, “o executivo do Estado moderno não é mais do que um comitê para administrar os negócios coletivos de toda a classe burguesa” (MARX e ENGELS, Manifesto Comunista). Portanto, não dá para continuar acreditando nas ideologias, nas mentiras e nas falsas promessas da classe dominante que aponta o jogo eleitoral como único caminho possível de participação popular. O MOCLATE nega categoricamente o princípio de que as eleições representam um espaço de conquista para os trabalhadores.
2. Que a burguesia só se interessa pelos trabalhadores enquanto estes trabalham e produzem lucros e que só têm trabalho enquanto aumentam o capital, conseqüentemente se não houver pressão, através da organização combativa dos trabalhadores jamais conseguiremos qualquer conquista.
3. Que mesmo quando estamos empregados, ganhando maiores ou menores salários, não deixamos de ser explorados e que, neste sistema, nossa condição sempre será manipulável.
4. Que é preciso fortificar nossa organização classista, continuar erguendo nossas bandeiras históricas de lutas pela sobrevivência tais como: fim da exploração de nosso trabalho, luta pelo direito a estudar, por escolas decentes, por condições de trabalho dignas, por saúde de boa qualidade.
5. Que não podemos jamais nos acomodar, esquecendo que sem um basta final na dominação burguesa, sem destruir e superar essa condição de existência que carece de ilusões para encobrir o vale de lágrimas a que estamos submetidos, jamais conseguiremos viver em paz, gozando nossas vidas para além do trabalho fatigante que praticamos.
Diante de tal realidade e com tais desafios é que estamos nos organizando, precisamos construir a unidade e a identidade de classe. É com este objetivo que estamos construindo o MOCLATE; este é o princípio que nos une e pelo qual lutamos. Nossas metas vão para além dos resultados imediatos. Nossos horizontes confundem-se com a construção e consolidação de uma nova humanidade. Para tanto precisamos nos preparar, intelectualmente e politicamente, não nos iludirmos quanto à facilidade de realizar tamanha tarefa, mas também não nos conformamos em ver a realidade cruel e sangrenta da maioria do povo que sem ter o que comer, onde morar e como trabalhar sequer conseguem chegar à escola. Os que conseguem, na maioria dos casos, não tem vontade e nem motivação para qualquer aprendizado.
Não será normal nem eterna esta condição dos trabalhadores se estes se identificarem enquanto classe e como classe marcharem unidos rumo à destruição desse estado de coisas e à construção de uma nova sociedade. Uma sociedade onde a produção seja socializada e onde não haja nenhum tipo de desigualdade, onde haja condições de se educar e de se construir o novo ser humano, uma sociedade socialista.
Para os trabalhadores a única solução está na sua organização e na sua união. Só assim é possível barrar as privatizações, a corrupção e as reformas, quer sejam elas, a previdenciária, a trabalhista, a sindical, a universitária, ou qualquer outra, que, ao contrário do que propagandeiam, só visam aprofundar ainda mais a dor, o sofrimento e a miséria dos trabalhadores. Como forma de enfrentamento, o MOCLATE:
· apóia a organização e a construção da Greve Geral que unifique todos os trabalhadores e todas as lutas para por fim à sua exploração e sua dominação;
· defende e se coloca a disposição dos trabalhadores em geral para contribuir no debate sobre suas condições de vida, de exploração e sobre a dominação a que estão submetidos;
· busca se organizar defendendo a luta direta dos trabalhadores da educação para as conquistas de seus direitos econômicos;
· dispõe-se também a contribuir com a organização de outras categorias em seus locais de trabalho, nos bairros ou em qualquer outro lugar para enfrentar e destruir o capitalismo, lutando pela construção do socialismo.
Entendemos que a educação, para além de toda ideologia, para além de toda demagogia, deve cumprir com sua função social, qual seja, a de tornar acessível a todos os conhecimentos científicos e a cultura acumulada historicamente; desmistificar as ilusões ideológicas burguesas e possibilitar o acesso tanto aos bens intelectuais quanto aos produtos materiais que os conhecimentos propiciam. Para isso, há que se suprimir toda a influência da classe dominante sobre a educação; há que se construir um projeto de educação que esteja sob o controle da classe que trabalha e produz conhecimentos; Nosso compromisso é desmascarar o oportunismo e trabalhar pela construção da unidade da classe trabalhadora, apontando para a construção de uma nova humanidade.
Foz do Iguaçu, 13 de Junho de 2009
MOCLATE – Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação
CECIPO – Centro de Educação Científica e Popular
Nos dias 12 e 13 de junho de 2009, ocorreu o II Encontro Nacional do Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação – MOCLATE. Com relação ao I encontro, que ocorreu em Curitiba, em novembro de 2008, este II foi marcado, principalmente, pelo avanço nas discussões sobre a relação das questões imediatas com as questões históricas e o papel que deve ser desempenhado pelos trabalhadores da educação para aproximar cada vez mais as lutas econômicas da luta política. Entendemos que a luta econômica é necessária, pois, como diz Marx em a Ideologia alemã: “os homens devem estar em condições de viver para poder ‘fazer história’. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais”. Diante disto, compreendemos que é necessário levar adiante nossas bandeiras históricas de luta:
· Mais investimento na educação pública estatal em todos os níveis;
· Salário condizente com uma vida digna que satisfaça todas as nossas necessidades básicas
· Mínimo de 50% de hora atividade para os professores prepararem aulas, estudarem, pesquisarem e atender individualmente os alunos;
· Redução significativa de alunos por sala – máximo 8 na educação infantil e 12 para o ensino fundamental e médio;
· Contra o Reuni que aumentará a carga horária e o número de alunos por professor, causando mais sucateamento ao ensino superior;
· Fim do PROUNI e abertura de vagas nas universidades públicas para todos os alunos que concluírem o ensino médio.
Embora tais medidas possam ser taxadas de utópicas por muitos, não é possível melhorar a educação sem elas. As organizações de trabalhadores da educação há muito abandonaram estas bandeiras; a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e a maioria dos sindicatos hoje atuam mais como secretarias ou ministérios do Estado do que como representantes dos trabalhadores. Prova disso é o envolvimento destas organizações com a CONAE (Conferência Nacional de Educação). Para estas entidades a CONAE será a grande conquista de uma educação de qualidade, ou seja, parece que o Estado agora passou a ser aliado dos trabalhadores, que não é mais de classe, que defende os interesses de todos. Será que o Estado realmente mudou? Não vivemos mais em um mundo capitalista cuja função do Estado é proteger a propriedade e os lucros da classe dominante? É possível unificar os interesses dos trabalhadores com os do Estado burguês-latifundiário?
Não esqueçamos que, como já nos provou Marx, o econômico, em última instância é o que determina todas as relações sociais. Partindo disto basta observar o que mudou na economia para ver se realmente o Estado mudou. Tomando como exemplo comparativo os gastos do governo federal em 2008 e a dívida pública, contrastando com os gastos em educação é possível afirmar de fato a serviço de quem o Estado está. Em termos absolutos, enquanto o governo gastou R$ 282,5 bilhões para pagamento da dívida pública, em educação, gastou apenas R$ 23, 7 bilhões. Este valor não ultrapassa 4 % do PIB, em nada diferindo de governos anteriores tão criticados no passado, pelos que hoje estão no governo ou nos sindicatos pelegos comemorando a organização de uma conferência nacional de educação como se esta fosse uma grande conquista histórica para os trabalhadores em educação deste país. Entretanto, conforme demonstramos acima, apesar do discurso em defesa da educação, o investimento nela continua sendo ínfimo, o que demonstra que as propostas para a educação no atual governo não passam de propaganda ideológica, enganosa e politiqueira. Que o Estado faça este jogo não há nada de errado, pois é necessário que ele corrobore no discurso as suas atitudes, mas nos causa indignação ver entidades e pessoas esbravejando na defesa de um governo que, no investimento em educação, não difere dos anteriores. Diante disso, o MOCLATE vem a público denunciar esse descaso, bem como o desvio de bilhões de reais que poderiam ser investidos para melhorar as condições de vida da maioria da população e que estão sendo empregados para salvar bancos e empresas falidas que continuam explorando e espezinhando os trabalhadores.
Educação e crise do capitalismo
A expansão da economia capitalista mundial, puxada pela economia ianque no pós-guerra se esgotou nos anos 1970. A partir daí crises cíclicas sacodem o sistema capitalista mundial em períodos cada vez mais curtos e com impactos cada vez maiores. O crescimento das economias capitalistas centrais é cada vez mais medíocre. A economia ianque que representava metade do PIB mundial no pós-guerra hoje não representa mais que um quarto dele.
No EUA, os salários dos trabalhadores produtivos diretos (que não ocupam cargos de chefia) não têm aumento real desde 1979. Também ocorreu uma forte desindustrialização, com fábricas sendo transferidas para outros países, buscando salários baixos, fontes de energia barata e matérias primas abundantes. Assim, o crescimento econômico da economia neste período foi ilusório, baseado na expansão artificial do crédito e na elevação brutal do déficit público. O estouro da bolha imobiliária, mecanismo de especulação e endividamento da população para financiar seu consumismo, jogou ao chão a economia. O desemprego atinge níveis alarmantes, a população não consegue pagar suas dívidas ou renovar seus créditos. A vertiginosa queda de consumo do EUA está levando ao colapso a produção industrial mundial.
Desde o ano passado, tornou-se ainda mais aguda esta crise, levando milhões de trabalhadores de todas as categorias ainda mais para a miséria, afinal, são estes os primeiros que pagam a conta sempre que o capitalismo sente-se ameaçado. Além disso, a atual crise, não é uma crise qualquer, momentânea, temporária e restrita a alguns países e algumas categorias de trabalhadores. Não é uma crise de “confiança”, de “crédito” e muito menos de uma “incapacidade ou descontrole dos organismos internacionais multilaterais” que não atuaram para controlar a especulação financeira mundial, conforme repete o monopólio de imprensa. Esta é uma crise generalizada e profunda que, a partir do coração do império, espraia-se e atinge a todos os trabalhadores do mundo todo, ainda que de forma desigual, devido à desigual organização social.
Diante da crise, sob pretexto de resolvê-la e de garantir o emprego aos trabalhadores – leia-se de garantir a exploração – a burguesia, através de seus governos, continua a saquear os recursos públicos, a atacar os direitos trabalhistas, relegando milhões de pessoas cada vez mais ao desemprego e à miséria. Os trilhões de dólares torrados pelos governos para “combater a crise” são para concentrar e centralizar ainda mais o capital. As potências se prepararam para a disputa interimperialista, prepararam-se para a guerra.
Os trabalhadores estão sendo cada vez mais atingidos pelo desemprego e pela perda de direitos trabalhistas. No serviço público isto não é diferente. A deterioração dos serviços já há muito tempo tem feito parte do dia-a-dia dos servidores. Aos trabalhadores da educação, também resta a piora de suas condições de trabalho, mais arrocho salarial, terceirizações dos serviços, mais alunos por sala e por professor, escolas cada vez mais sucateadas, etc. As condições de vida destes trabalhadores passam de ruim para pior, as mazelas sociais agravadas por esta crise estouram nas escolas públicas. Não é incomum os casos de violência cada vez mais freqüentes e graves no interior das escolas, professores estressados, deprimidos, sentindo-se impotentes diante dos problemas oriundos da sociedade e que acabam estourando na escola. Se continuarmos neste modelo social de produção (capitalismo) as coisas tendem a piorar cada vez mais. Não adianta querer tapar o sol com a peneira, o fracasso escolar é inerente ao modelo social vigente.
Como vemos, embora estejamos no serviço público e sermos vistos por muitos como pertencentes à classe média, ou coisa do gênero, nossa vida segue dominada pela mesma lei de mercado aplicada para qualquer outra categoria de trabalhadores: reduzir salários e outros benefícios para garantir o máximo de lucro para os capitalistas.
Apesar disso, a poderosa e sofisticada máquina de contra-propaganda da burguesia repete à exaustão que o pior da crise já passou, que poucos meses retomaremos o crescimento. Tudo por manter o trabalhador alienado, para massacrar a opinião pública de que é hora de promover reformas para corrigir rumos, pois, o sistema é bom, insistem seus defensores, basta que se corrijam alguns equívocos e distorções. A burguesia e seus intelectuais e agentes, tentam colocar na cabeça dos trabalhadores a idéia de que “não é possível superar a crise sem crescimento econômico”; que o sistema capitalista é bom e a questão é apenas corrigir alguns erros pontuais, mas sem tocar em sua estrutura, isto é, na propriedade privada e na conseqüente divisão entre capital e trabalho.
Como não poderia ser diferente, para manter o trabalhador alienado, para perpetuar a extração da mais-valia, isto é, para sugar o sangue do trabalhador, não lhes restam outros recursos senão entorpecê-los, investir na sua divisão, fomentar a competição, reforçar o individualismo e alimentar ilusões e fantasias nos processos eleitorais, que não passam de um modelo falido de democracia. Além disso, desviam a atenção do essencial, apresentando algumas “personalidades” como se fossem verdadeiros salvadores, na tentativa de induzir os trabalhadores a acreditar que são estes iluminados que resolverão seus problemas.
Mas os fatos são teimosos e citando novamente, Marx, “o critério de verdade de uma teria é seu desdobramento na prática” e, na prática, o que vemos é a fome, a exploração e opressão empurrando às massas para a luta. Ondas de protesto de trabalhadores sacodem o mundo inteiro. Greves, manifestações, ocupações de fábricas, duros enfrentamentos com a polícia, crescimento de rebeliões populares, incremento da luta anti-imperialista nos mostram a falência do capitalismo.
Para nós do MOCLATE, o imperialismo, atual fase do capitalismo, não se livrará de suas crises, mas também não sucumbirá apenas por elas. Precisa ser derrubado e destruído como modo de produção historicamente superado pela força organizada dos explorados e oprimidos. E qual o papel dos trabalhadores da educação neste processo? Ficar como meros expectadores, repetindo aos alunos que estudem, lutem, batalhem que irão vencer? Ou ir a fundo na teoria científica da sociedade e disputar hegemonia com a ideologia burguesa que afirma ser o individualismo o caminho para vencer na vida?
Os Desafios dos Trabalhadores em educação diante da crise do capitalismo
Das diferentes e sucessivas crises pelas quais os trabalhadores foram passando, já é possível superar ilusões e extrair algumas conclusões:
1. Que de fato o Estado e o Parlamento são meios de a burguesia se locupletar ou seja, “o executivo do Estado moderno não é mais do que um comitê para administrar os negócios coletivos de toda a classe burguesa” (MARX e ENGELS, Manifesto Comunista). Portanto, não dá para continuar acreditando nas ideologias, nas mentiras e nas falsas promessas da classe dominante que aponta o jogo eleitoral como único caminho possível de participação popular. O MOCLATE nega categoricamente o princípio de que as eleições representam um espaço de conquista para os trabalhadores.
2. Que a burguesia só se interessa pelos trabalhadores enquanto estes trabalham e produzem lucros e que só têm trabalho enquanto aumentam o capital, conseqüentemente se não houver pressão, através da organização combativa dos trabalhadores jamais conseguiremos qualquer conquista.
3. Que mesmo quando estamos empregados, ganhando maiores ou menores salários, não deixamos de ser explorados e que, neste sistema, nossa condição sempre será manipulável.
4. Que é preciso fortificar nossa organização classista, continuar erguendo nossas bandeiras históricas de lutas pela sobrevivência tais como: fim da exploração de nosso trabalho, luta pelo direito a estudar, por escolas decentes, por condições de trabalho dignas, por saúde de boa qualidade.
5. Que não podemos jamais nos acomodar, esquecendo que sem um basta final na dominação burguesa, sem destruir e superar essa condição de existência que carece de ilusões para encobrir o vale de lágrimas a que estamos submetidos, jamais conseguiremos viver em paz, gozando nossas vidas para além do trabalho fatigante que praticamos.
Diante de tal realidade e com tais desafios é que estamos nos organizando, precisamos construir a unidade e a identidade de classe. É com este objetivo que estamos construindo o MOCLATE; este é o princípio que nos une e pelo qual lutamos. Nossas metas vão para além dos resultados imediatos. Nossos horizontes confundem-se com a construção e consolidação de uma nova humanidade. Para tanto precisamos nos preparar, intelectualmente e politicamente, não nos iludirmos quanto à facilidade de realizar tamanha tarefa, mas também não nos conformamos em ver a realidade cruel e sangrenta da maioria do povo que sem ter o que comer, onde morar e como trabalhar sequer conseguem chegar à escola. Os que conseguem, na maioria dos casos, não tem vontade e nem motivação para qualquer aprendizado.
Não será normal nem eterna esta condição dos trabalhadores se estes se identificarem enquanto classe e como classe marcharem unidos rumo à destruição desse estado de coisas e à construção de uma nova sociedade. Uma sociedade onde a produção seja socializada e onde não haja nenhum tipo de desigualdade, onde haja condições de se educar e de se construir o novo ser humano, uma sociedade socialista.
Para os trabalhadores a única solução está na sua organização e na sua união. Só assim é possível barrar as privatizações, a corrupção e as reformas, quer sejam elas, a previdenciária, a trabalhista, a sindical, a universitária, ou qualquer outra, que, ao contrário do que propagandeiam, só visam aprofundar ainda mais a dor, o sofrimento e a miséria dos trabalhadores. Como forma de enfrentamento, o MOCLATE:
· apóia a organização e a construção da Greve Geral que unifique todos os trabalhadores e todas as lutas para por fim à sua exploração e sua dominação;
· defende e se coloca a disposição dos trabalhadores em geral para contribuir no debate sobre suas condições de vida, de exploração e sobre a dominação a que estão submetidos;
· busca se organizar defendendo a luta direta dos trabalhadores da educação para as conquistas de seus direitos econômicos;
· dispõe-se também a contribuir com a organização de outras categorias em seus locais de trabalho, nos bairros ou em qualquer outro lugar para enfrentar e destruir o capitalismo, lutando pela construção do socialismo.
Entendemos que a educação, para além de toda ideologia, para além de toda demagogia, deve cumprir com sua função social, qual seja, a de tornar acessível a todos os conhecimentos científicos e a cultura acumulada historicamente; desmistificar as ilusões ideológicas burguesas e possibilitar o acesso tanto aos bens intelectuais quanto aos produtos materiais que os conhecimentos propiciam. Para isso, há que se suprimir toda a influência da classe dominante sobre a educação; há que se construir um projeto de educação que esteja sob o controle da classe que trabalha e produz conhecimentos; Nosso compromisso é desmascarar o oportunismo e trabalhar pela construção da unidade da classe trabalhadora, apontando para a construção de uma nova humanidade.
Foz do Iguaçu, 13 de Junho de 2009
MOCLATE – Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação
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